Esse ano está sendo "pauleira". Dois empregos e mais um doutorado e esse blog, coitado, ficou a ver navios. Já ando lendo e escrevendo tanto, forçando a caixola das sete e meia da manhã às duas da madruga praticamente de segunda a segunda, que sentar e me dedicar com tempo ao Euforia tornou-se uma tarefa quase impossível.
De qualquer forma, mesmo que parecesse, não considerei esse blog encerrado em nenhum momento. Aliás, andei lendo por aí, no Pensar Enloquece, que os blogs estão condenados com a popularização do Twitter e do Facebook. Bom, não utilizo, pelo menos por enquanto, essas duas ferramentas, mas, principalmente em relação ao Twitter, desconfio de algo que só possa ser expressado em 140 caracteres.
Por ora, tenho apenas orkut, que uso mais para debater em duas ou três comunidades, e este blog, semi-abandonado.
Bom, mas retornei a escrever após passar uma data que eu havia estabelecido como simbólica, o dia 02 de outubro. Antes disso havia estabelecido para mim mesmo que não voltaria ao blog. É que nesse dia passei pela qualificação do doutorado. Quem já passou pelo mestrado ou doutorado sabe o que significa esse ritual, mas para quem ainda não viveu esta experiência, trata-se de um momento, mais ou menos na metade, ou mais próximo ao final, no qual você é avaliado por uma banca de professores, tendo por base seu texto preliminar.
É um processo tenso, no qual a obrigação da banca ali é "pegar no pé" mesmo, chamando a atenção para todas as pontas que estão soltas em seu trabalho. Chovem sugestões, conselhos e "broncas acadêmicas" sobre você e depois disso só resta sentar e filtrar o que é válido do que não poderá ser aproveitado.
Chegar a essa qualificação foi um grande desafio. Esse doutorado está sendo um longo e complexo desafio, que por várias vezes foi deixado de lado, mas que do final do ano passado para cá foi retomado com força e disciplina. Passada a qualificação, tenho ainda mais uma longa jornada pela frente, provavelmente mais um ano e meio, ao menos.
Fácil não é. Mas também já foi mais difícil. Não estou escrevendo a tese que sonhei, quando ingressei no doutorado, os problemas foram (e são) muitos, de todas as ordens, entretanto estou satisfeito com o que foi produzido, principalmente neste ano, com todas as dificuldades advindas da extensa carga de trabalho além do próprio doutorado, que já seria, por si só, ocupação suficiente.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Passei pela qualificação: mais uma etapa cumprida
terça-feira, 26 de maio de 2009
"Dotô"
Nos últimos 90 dias publiquei apenas dois posts neste blog. Há quase 60 não escrevia nada. Algumas pessoas me mandaram mensagens perguntando se eu tinha desistido do Euforia Melancólica.
Não desisti.
A razão de passar pouco por aqui tem um nome: doutorado.
É muito complicado virar "doutor" no Brasil. São muitas as exigências e poucos os estímulos. Ingressei há pouco mais de quatro anos no doutorado, com planos absolutamente diferentes daqueles que o futuro acabou reservando. Eu já deveria ter previsto, afinal de contas, eu vivo dizendo que "expectativas normalmente levam a frustrações".
O fato é que uma diferença pessoal levada ao nível acadêmico acabou me custando a possibilidade de conseguir uma bolsa. Comprei uma briga que nem era minha, critiquei quando deveria ter ficado quieto e perdi a chance de poder me dedicar integralmente à minha tese. Sem esse suporte financeiro, tive que trabalhar durante todos esses anos, no mínimo, quarenta horas semanais. Muitas vezes mais. E, como me disse a pessoa que me tirou as chances de conseguir uma bolsa, "nunca conheci ninguém que trabalhando 40 horas concluiu um doutorado".
Eu também não. É muito difícil. Quem tem uma experiência universitária sabe que um Trabalho de Conclusão de Curso já é algo que esquenta a cabeça. Uma dissertação de mestrado leva o sujeito à loucura. Uma tese de doutorado então, é pedir para ser internado e não sair mais. Obras acadêmicas, de uma maneira geral, o sujeito não termina, ele abandona, porque quanto mais se pesquisa, mais se descobrem coisas, logo a sensação do prazer em produzir é acompanhada de uma angústia pelas limitações, sejam de tempo, acesso às fontes ou mesmo de incapacidade intelectual.
Por esse fator da bolsa, além de outros que não cabe aqui detalhar, acabei me desmotivando muito com a História como um todo e o doutorado em particular. Cheguei a trancar por um ano e cogitei seriamente a possibilidade de desistir. Não o fiz porque não costumo desistir dos projetos facilmente, além, é claro, de entender que o título pode ser muito importante no futuro, ainda que já não seja mais algo tão exclusivo.
Esse ano voltei a trabalhar de forma disciplinada e sistemática na minha tese. Desde janeiro estou tentando recuperar o tempo, porém é muito complicado. Trabalhar o dia inteiro, dar atenção à família, cumprir todos os demais compromissos que a vida nos impõe e nesse meio tempo achar motivação, concentração e criatividade para escrever uma tese é um desafio portentoso. Às vezes, fico horas olhando para a tela do computador, cursor piscando e nada de escrever. Outras, escrevo muito, fico empolgado e quando vou conferir vejo que o marcador do Word diz que avancei apenas três páginas. "Tem certeza?", pergunto para o programa, como se ele fosse me responder. E os livros? Uma leitura puxa outra, que traz um novo fichamento e tudo isso toma muito tempo. Sem falar em notas de rodapé e citações, intermináveis. E as normas da ABNT, lógico, essas companheiras inseparáveis.
Há meses praticamente só assisto aos filmes relativos ao meu tema de pesquisa. Livros, então, só li sobre cinema. Mesmo assim, praticamente todos os meus prazos se encerraram ou estão no limite. É bem possível que todo o esforço que estou fazendo seja em vão e eu acabe sendo desligado do programa de pós graduação. De qualquer forma, continuarei nessa rotina por mais algum tempo, tentando passar pela qualificação. Se conseguir, ganho uma sobrevida, que me dará mais um ano e meio, mais ou menos, até a defesa pública. Caso tudo corra bem, lá por 2011 pode ser que eu seja um "dotô".
quinta-feira, 26 de março de 2009
Casal
Ela gritou muito alto, olhos fuzilando os dele.
_ Afinal de contas, o que você quer? - ele quis saber, sem alterar a voz.
_ Eu só quero que você me ame... - suspirou, tentando, em vão, conter algumas lágrimas que começaram a escorrer. _ Será que é tão difícil de entender?
Ele a tomou pela mão e a abraçou carinhosamente, sentindo seu corpo pequeno e magro junto ao dele. Colocou, suavemente, o cabelo escuro dela para trás da orelha e cochichou quase inaudível: _ É.
Ela sorriu, meio encabulada.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Lucro do Itaú cai em 2008. Apresentadora da Globo visivelmente preocupada.
Assistia ao Jornal da Globo agora e Cristiane Pelajo, a apresentadora, anuncia que o Itaú, "assim como outros bancos brasileiros, teve queda nos lucros em 2008". Sua cara é de preocupação, aquela que a pessoa franze as sobrancelhas. Entra a matéria, o presidente do Itaú ("Itaú/Unibanco", fazem questão de dizer) fala do cenário mundial e diz que espera aumento da inadimplência. Já haveria até uma reserva destinada a cobrir esses rombos.
A queda nos lucros que preocupava a Cristiane Pelajo? Ah, tá, ia me esquecendo, caiu de 11 bilhões em 2007 para 10 bilhões em 2008. Frisando que não se trata de faturamento, mas sim de lucro, dinheirinho (no caso, dinheirão) que entra limpo no bolso dos acionistas.
Os funcionários do Itaú que tomem cuidado. Um bilhão a menos na conta é realmente um sinal de que a crise mundial atingiu a empresa e, talvez, seja preciso demitir algumas dezenas de "colaboradores" (não é assim que chamam empregado hoje em dia?) que ganham entre mil e dois mil por mês, afinal de contas alguém tem que pagar o pato.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Oscar 2009
A coincidência de datas entre o Carnaval e o Oscar fez com que a Globo engavetasse a premiação do cinema. Também não cedeu aos apelo de repassar os direitos a outra emissora. Prática comum na Globo, comprar produtos e não exibi-los ou fazê-lo em horários absurdos, apenas para não deixar nas mãos da concorrência.
Errado? Do ponto de vista de quem prefere o Oscar ao Carnaval sim, mas na visão empresarial da emissora acredito que não. Ela pagou pelo Oscar, não pagou? Faz com ele o quiser, inclusive não exibi-lo. Para seus anunciantes e telespectadores, o Carnaval dá mais retorno. Sendo assim, assistir a transmissão do evento hollywoodiano ficou para quem tem tv a cabo ou, então, pela internet.
Quanto à premiação, deu o esperado. Todos os anos, normalmente, dois filmes polarizam a disputa e um chega como franco favorito ao dia da entrega. Desta vez, Quem Quer Ser Um Milionário? e O Curioso Caso de Benjamin Button dividiam as atenções. Button até largou na frente - teve 13 indicações contra 10 de Milionário - mas perdeu fôlego durante a temporada de premiações. O filme de Danny Boyle, sobre um pobre menino indiano que tenta ficar rico num programa de TV ao estilo "Show do Milhão" varreu a concorrência. Acabou conquistando 8 estatuetas, o que, para mim, é um evidente exagero. Não é filme para isso.
Acredito que aconteceu com Milionário a mesma coisa que se passou com O Paciente Inglês, por exemplo. Um bom filme, correto, mas nada muito além disso, que foi beneficiado pelo contexto e pela fraca concorrência no ano. Em 2008, por exemplo, tínhamos como favoritos na disputa Sangue Negro e Onde os Fracos Não Têm Vez, dois filmes sensacionais, muito, mas muito superiores a todos os cinco finalistas deste ano. E esses dois nem foram, na minha opinião, os melhores do ano passado. O melhor de 2008 foi O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford.
Esse ano a grande ausência foi Batman. Não teve jeito, a idéia de um filme de super-herói dos quadrinhos levando a principal estatueta não vingou. Pena para o Oscar. Muitos clamaram pela inclusão de Wall-E entre os finalistas, talvez até como vencedor. O filme é realmente muito bom, mas acho que foi superestimado num ano fraco como 2008.
A despeito de todas as críticas que o prêmio merece, gosto de acompanhar o desenvolvimento que leva aos indicados e a cerimônia de entrega. Da mesma forma como procuro acompanhar também outros grandes prêmios do cinema. Acho interessante a valorização, a diferença de opiniões e a dinâmica das escolhas. O Oscar, cujo clichê é falar que é uma "festa da indústria", que "não premia o talento", etc., sempre me pareceu interessante pela emoção que causa nos premiados. Todo mundo faz um ar meio blasé de que não está nem aí, mas quando ganha chora como criança e, quando perde, não esconde a decepção. Kate Winlet e David Fincher, ontem, não me deixam mentir.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Dez filmes que marcaram a minha vida
Atenção: esta lista não foi feita pela qualidade, aliás isso claramente falta a alguns deles. Selecionei filmes que marcaram algum momento da minha vida, nem sempre por bons motivos. Também não estão em ordem de importância, seguem aleatoriamente.
1 - Magnólia
O filme é maravilhoso, com um roteiro fantástico, repleto de significados e interpretações. O elenco está soberbo. E quando vi pela primeira vez (já foram várias), identifiquei-me muito com o drama dos personagens, pois vivia uma barra pesada na época.
2 - Trapalhões
Qualquer filme deles. Eu passei horas da minha infância nas filas do cinema de Olaria para assistir aos filmes, junto com meus pais e meu irmão.
3 - O Vingador do Futuro
Esse não entra na lista por mostrar a Sharon Stone bem novinha. Infelizmente, o motivo é outro. Era 1990, eu tinha 13 anos e ia ao cinema junto com meu irmão, quando fomos assaltados. De arma em punho, o sujeito levou nossos relógios, dinheiro e ainda o meu par de tênis. Rio, 40 graus. Graças ao poder de negociação do meu irmão, o bandido nos "deu" dinheiro para o ônibus, a fim de voltarmos para casa. Isso não me salvou de caminhar no asfalto quente com os pés no chão e chegar em casa com bolhas nos pés.
4 - Karate Kid
A Globo passou num domingo e, ao final, anunciou que a segunda parte estrearia nos cinemas naquela semana. Foi uma febre coletiva. Todos queriam ser Daniel Sam. As escolas de karatê tiveram as matriculas duplicadas. Quem da minha geração não fez aquela posição que ele ganhou a luta final, quando o oponente colocou a cara no pé machucado dele?!...hehe... nem que fosse bêbado numa festa? O que tinha de gente encerando carro achando que ficaria mestre das artes marciais... e ainda tinha a Elisabeth Shue adolescente.
5 - Indiana Jones e o Templo da Perdição
Sou fã da série Indiana Jones, mas acho esse inferior a Caçadores da Arca Perdida e a Última Cruzada. Porém, entra na lista porque foi um dos primeiros filmes que assisti no falecido videocassete. Na verdade, nem tinha o aparelho nesta época. Morava no Rio, estava de férias em Lages, SC, e fui junto com meu irmão e meus primos Walter e Fabricio alugar uns filmes para passarmos o tempo. Eu aluguei esse. Adorei o filme, virei fã da série e passei a olhar a História com outros olhos.
6 - Os Bons Companheiros
Absolutamente fantástico. Está nesta lista porque foi o primeiro filme que eu me lembro ter aplaudido quando terminou. Quando os créditos surgiram na tela eu e meu irmão nos olhamos e aplaudimos, sem nem combinar.
7 - Duro de Matar
Quem é mais novo só conhece Duro de Matar como uma série parecida com outras de ação, tendo Bruce Willis como protagonista. Não sabem que esse filme, lançado em 1988, reinventou o gênero. Ditou as regras que seriam usadas depois dele. Todos os filmes de ação passaram a ser Duro de Matar em "algum lugar": no trem (A Força em Alerta), no ônibus (Velocidade Máxima) e assim por diante. Eu e meu irmão fomos assistir num domingo. Gostamos tanto que voltamos na segunda.
8 - Pulp Fiction
É um dos meus filmes preferidos. Um dos mais importantes da década de 90. Porém, entra nesta lista porque, até onde consigo me lembrar, foi a primeira vez que fui completamente sozinho ao cinema. Nem meu irmão e fiel companheiro de filmes, namorada, amigos, ninguém. Vi duas vezes, na segunda com uma galera.
9 - Alligator
Um crocodilo lançado no vaso sanitário, que vira um monstro gigantesco e assassino nos esgotos?! E banho de piscina, então? Criança nenhuma que assistiu aquele filme pulou na piscina do mesmo jeito.
10 - Quadrilha de Sádicos
Uma família viaja tranquilamente até ser enganada e cair nas mãos dos sádicos que dão o título nacional do filme. Viajava muito com minha família e sempre que estávamos em algum lugar meio desabitado, alguém disparava: "olha os sádicos".
sábado, 31 de janeiro de 2009
Jornalismo, História e os diplomas - parte 2
Passei uma semana viajando e sem internet, então ainda não tinha validado os comentários feitos nesse período, no post anterior. A quem se interessa pelo tema, recomendo a leitura. Altíssimo nível, o que me deixa bastante contente.
*****
Quando prestei o vestibular estava na dúvida entre três opções: História, Letras e Jornalismo. Na verdade, na época, eu queria ser escritor. Meu projeto de vida era viver de escrever. Porém, não existe curso superior que forme o cidadão exclusivamente para isso, logo eu tinha que optar por algo que me oferecesse subsídios para tornar minha empreitada possível. Desde o início da adolescência, sabia que minha formação estaria ligada às Humanidades, pois apesar de não ser um fiasco nas Exatas (de Física eu até gostava), entendi muito cedo que aquilo não era para mim.
Para me decidir por História adotei os seguintes critérios: em primeiro lugar, imaginei que História seria o curso que me daria o maior campo de conhecimento geral, fundamental para um bom escritor; em seguida, valorizei meus ideais "revolucionários" da época, imaginando que, como professor, poderia transformar muitas mentes, ter mais liberdade, afinal de contas, mesmo preso a uma estrutura escolar, o professor é meio patrão de si mesmo e, contrariamente, via o jornalista como muito atrelado a um sistema que o podava. Só de pensar em cursar Jornalismo e depois ser obrigado a trabalhar caçando celebridades, por exemplo, apavorava-me (coisas da juventude); por fim, tive ótimos professores de História, sendo o último deles fantástico, o que, de certa forma, ligava-se ao segundo item.
Uma vez no curso, minhas expectativas se confirmaram por um lado, mas se surpreenderam negativamente por outro. O lado bom foi descobrir que a faculdade realmente oferecia uma possibilidade de conhecimentos absurda. Atrevo-me a dizer que nenhum curso se compara ao de História nesse ponto. É ótimo como um segundo curso, por exemplo, dado o grande número de pessoas que fazem essa faculdade (ou algumas disciplinas) depois de já formadas em outra, apenas para ampliarem seus conhecimentos. Para jornalistas de determinadas áreas, como correspondentes internacionais, por exemplo, acho que seria fundamental. História se revelou um curso ótimo para quem gostava de ler e escrever, justamente duas coisas que eu fazia sem o menor esforço.
A surpresa negativa veio ao descobrir que historiador não era uma profissão reconhecida no Brasil. Antes de ingressar na faculdade, isso nunca havia me passado pela cabeça, por isso não me preocupei em saber a respeito. Para mim, era natural que seria. Não era. Não havia conselho nacional, regional, classe organizada, sindicato, não havia nem mesmo o dia do historiador. Havia apenas uma associação nacional mais preocupada em defender os interesses dos professores universitários. Fiquei decepcionado.
Procurei me informar a respeito do assunto e descobri que havia vários projetos em tramitação no Congresso buscando a regularização da profissão, mas que não iam adiante por falta de interesse. Participei de alguns debates acerca do assunto e entre os alunos as opiniões se dividiam, mas a maioria dos professores se posicionava contra. Numa dessas reuniões, presenciei uma professora, ao não conseguir convencer os presentes de que a regularização era uma bobagem, dar um violento tapa na mesa e abandonar o debate.
A minha surpresa vinha do total desinteresse dos historiadores pela regularização da profissão. Parecia-me um tiro no pé, além de uma total desvalorização da própria faculdade e da carreira escolhida. Uma visão romântica de mundo, na qual não se podia cercear a liberdade das pessoas de também serem historiadoras. O contrário, infelizmente, não era verdade. Enquanto o curso de História escancarava suas portas a todos os interessados em cursas disciplinas na pós-graduação, por exemplo, os outros tornavam essa tarefa um parto. Enquanto ingressar como professor em qualquer curso superior exige uma formação bastante específica na área, em História, em geral, exige-se apenas o doutorado (quando acontece, muitas vezes exige-se apenas área afim), o que permite casos como o de um professor que tive, cuja formação havia sido em Psicologia. Assim, qualquer seleção em História tem um número muito maior de candidatos que a média.
Não lutar pelo reconhecimento da profissão parecia-me, também, hipócrita. Por trás de toda a máscara de humanismo que produzia situações como as citadas no parágrafo anterior, eu via muitas disputas nos departamentos das faculdades, no melhor estilo capitalista selvagem, e presenciava também muitas reclamações pelo fato de jornalistas escreverem os livros mais populares de História, partindo, inclusive, vejam só, dos professores. Que culpa tem os jornalistas se os historiadores não lutam por seu espaço e, pior, escrevem apenas para seus pares?
Sem reconhecimento da profissão, os historiadores perdem espaço nas escolas, empresas e, principalmente, no serviço público. Entre os milhares de editais abertos por ano, raramente se encontra uma vaga para historiador. E, quando há, geralmente é enquadrado como técnico, já que não é profissão reconhecida, recebendo, portanto, salário menor.
Participei de debates acerca do tema, até que enjoei. Segui minha vida, formei-me, passei pelo mestrado, estou no doutorado e esse é um caso que não vai mudar. A maioria dos historiadores não quer a regulamentação da profissão ou, pelo menos, não luta por isso. É um debate semelhante ao do Jornalismo (o comentário do Vander, no post anterior, é idêntico ao que ouvi muitas vezes na História, inclusive com o debate sobre ser ou não uma ciência), com a diferença que no caso deles, a maioria parece defender a formação universitária.
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Voltarei uma vez mais ao tema, para encerrar, refletindo sobre currículos e prós e contras das exigências de diploma e regulamentação das profissões.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Jornalismo, História e os diplomas
O jornalismo vive sempre às voltas com a questão que envolve a exigência - ou não - do diploma universitário para se exercer a profissão. Agora mesmo, está no STF, a espera de julgamento, um recurso que coloca em lados opostos a Federação Nacional de Jornalistas e o Ministério Público Federal de São Paulo e o Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no Estado de São Paulo.
Pelo que pude pesquisar, exigência de diploma para exercer a profissão de jornalista é coisa do Brasil e de alguns países com educação mais atrasada. Em outros, a pessoa faz uma formação geral (Economia, Ciências Políticas, História...) e então cursa uma especialização nos aspectos técnicos que envolvem o jornalismo.
Em última instância a briga, logicamente, é pela reserva de mercado. A cada semestre, são despejados no mercado milhares de jornalistas. Onde esse povo todo vai trabalhar? Ainda que a área de atuação seja ampla, falta espaço em muitos lugares. E todas essas faculdades, os profissionais que gravitam em torno dela, todos querem a exigência do diploma, do contrário haveria um êxodo de alunos.
Não tenho formação de jornalista, sou Historiador. E temos a mesma discussão na área, regularizar ou não a profissão. No nosso caso, diferente dos jornalistas, não há muita mobilização envolvendo o tema. Arrisco-me a dizer que a maioria dos historiadores é contra a idéia. A ANPUH, principal órgão representativo da profissão no Brasil, pouco liga para isso. Aliás, o país pouco liga para a História, verdade seja dita.
Uma grande ironia reside no fato de que os historiadores que defendem a regularização da profissão e uma consequente reserva de mercado alegam, como um de seus principais argumentos, que a área é invadida pelos jornalistas, que não teriam, supostamente, a formação necessária para escrever sobre o tema, mas enchem as prateleiras das livrarias com obras desse cunho. E os jornalistas que querem a exigência do diploma reclamam justamente das outras áreas invadirem um espaço supostamente seu em virtude do canudo.
Voltarei a esse tema. Mas gostaria de ler opiniões. Meus amigos jornalistas e historiadores que frequentam o blog, o que pensam a respeito disso?
***
Alguns endereços sobre o debate do diploma jornalístico:
Federação Nacional dos Jornalistas
Movimento em Defesa dos Jornalistas Sem Diploma
Observatório da Imprensa
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Especialistas em Oriente Médio
Dizem que, no Brasil, todos são um pouco treinadores de futebol. De tanto que debatem sobre o esporte, qualquer zé mané na rua opina sobre tática, técnica, escala seu time ou a seleção, contrata e administra melhor o clube que o dirigente que está lá no comando.
Essa nação de especialistas também atua em outras frentes. Uma delas, que tenho percebido nestes primeiros dias do ano, diz respeito ao massacre na Faixa de Gaza. Esse é um assunto que me interessa muito e tenho acompanhado debates em diferentes emissoras de televisão, via internet, em fóruns ou blogs e também tenho procurado bibliografia sobre o tema.
Apesar de buscar todas essas referências, já ter lecionado sobre o assunto e somado ao fato que tenho formação de historiador, considero esse um assunto muito complexo para uma análise que não soe reducionista entre vítimas e vilões, por exemplo.
Nesse momento condeno veementemente o que Israel está fazendo. Não está havendo guerra, está havendo um massacre. Seu ataque à Faixa de Gaza é desproporcional e covarde, sendo amparado pela complacência dos Estados Unidos, a ineficácia da ONU e as vistas grossas dos demais países do mundo, pelos mais diferentes motivos.
De qualquer forma, como escrevi antes, esse é um assunto que me parece muito complexo. São séculos de história naquela região e a diferença religiosa, tão propalada, é apenas um dos problemas. O maior parece ser a posse pela terra. Há também a questão da água, concentrada, em sua maioria, nas mãos de Israel. Há ainda a relação com os outros países árabes e destes com o resto do mundo, principalmente com os Estados Unidos, os interesses econômicos, enfim, são tantos meandros que não vejo solução a curto prazo para que aquela região deixe de ser um barril de pólvora.
Por isso, surpreendo-me com tanta gente, principalmente na internet, especialmente nos comentários de blogs ou fóruns, tão entendida do assunto, tão senhora da razão, tão conhecedora daquela região. A solução da crise é fácil, está aí, basta ler a internet brasileira. Que bom se conhecêssemos nosso próprio país tão bem assim.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Anacrônico
"A tecnologia é a coisa mais linda do mundo", não se cansa de repetir meu pai. Ele se surpreende com o alcance dos telefones celulares, que permitiu que nos comunicássemos com um toque na virada do Ano Novo, mesmo separados por mais de 500 quilômetros. A internet, então, ele delira. "Como pode tudo isso vir através de um cabo?" Na verdade, nem eu entendo bem como funciona, respondo-lhe.
Meu pai nasceu e se criou até a metade de sua adolescência numa cidade no interior de um interior. Um vilarejo, cercado por muita vegetação, na qual, segundo seus relatos, deu muito tapa na cara de onça e lutou com jacarés nos rios, além de ter sido também jóquei e coroinha. Depois, mudou-se para uma cidade um pouco maior e acabou sendo transferido pela empresa que trabalhava para o Rio de Janeiro, na década de 70. Uma transformação e tanto.
Ele me acha muito "conhecedor" destas novas tecnologias. Estou sempre mexendo no computador, consertando uma coisa aqui, outra ali, tenho um blog, que ele não entende exatamente do que se trata e, para quem não conhece muito, até parece que eu sei mesmo alguma coisa. Ledo engano.
Meu celular é antiguíssimo, normalmente fico de três a quatro anos com cada aparelho e quando vou trocar compro o modelo mais barato (ou seja, já compro um ultrapassado) e o vendedor disfarça um risinho debochado. Não faz muito tempo me surpreendi que o celular tivesse MP3, vejam só, e só ontem fiquei sabendo - através de um daqueles canais de vendas - que celular pode receber documentos do word, excel, conectar-se à internet e baixar vídeos. Não tenho TV de plasma ou LCD, aliás nem tela plana é. Também não tenho notebook, Iphone, Ipod ou esse tipo de coisa. E hoje recebi um email ofertando um MP7. Existe isso? Para mim, ainda estavam no 4. Também não entendo nada de conexões à internet sem fio. Quando vejo nos shoppings, por exemplos, as pessoas abrindo seus notebooks na praça de alimentação e conectando-se rapidamente, apenas lembro de meu pai, afinal de contas, a "tecnologia é a coisa mais linda do mundo".
Gosto de tecnologia, até procuro acompanhar, mas muda tudo tão rápido (ou eu que sou lento mesmo?) que, às vezes, sinto-me anacrônico. Que meu pai não leia isso, senão vai se decepcionar. E não é só em relação aos aparelhos que isso acontece. Na verdade, a motivação para esse post veio depois de algumas horas navegando pelos blogs anteontem. Nos últimos meses, apenas atualizei o Euforia de tempos em tempos, participava moderadamente de algumas comunidades no orkut e lia meus blogs preferidos. Confesso que não me atentei aos detalhes, digamos assim.
No blog do Marcelo e em outros, vi um banner do diHITT. Muita gente participando e eu não tinha a menor idéia do que se tratava. Vi também novas ferramentas aqui no blogger, que eu desconhecia, como os seguidores de blog - não entendi muito qual é a utilidade, é uma espécie de fã-clube (não estou sendo irônico, é que não captei mesmo)? - os links para os blogs em forma de feed, que indicam quando o sujeito o atualizou (eu já tinha visto e, tolo, só na terça descobri que era uma ferramenta do blogger mesmo...dã...). E o Blogblogs? Está todo alterado, eu nem consigo mais entrar, pois mudaram a forma de acesso.
Também vi que há um grande concurso em disputa, chamado Best Blogs Brazil, que eu desconhecia totalmente. Entrei no site e constatei, constrangido, que não conheço uns 90% dos que estão ali disputando a premiação. E eu pensava conhecer muitos blogs. Aliás, navegando por esse caminho, descobri (novidade para mim, lógico!) uma série de conflitos envolvendo esse mundo dos blogs, desde ciúmes por brindes que a Coca-Cola deu a alguns blogueiros e não a outros, passando por uma lista dos melhores do país publicada pela Época e chegando até uma visita à Rede Globo, a fim de acompanhar os bastidores da novela Caminho das Índias, na qual uma personagem será blogueira. Pretendo falar com mais detalhes sobre isso num próximo post.
Enfim, verei se durante esse ano acompanho melhor essas mudanças nos blogs e nas tecnologias, afinal de contas... opa, peraí, o relógio cuco da está tocando, desconcentrei-me...


